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segunda-feira, 7 de maio de 2012

É duro, mas é gostoso!

               
Cliente amiga, empresária de agência, me liga para desabafar seu desalento por causa do que considera má prática crescente dos tradutores, qual seja, a de lançar traduções no GTK e arrumar o resultado final. Esse estado de ânimo entre as agências sérias não é incomum e é justificado, mas não acho correto imputar, como ela o fez, a responsabilidade por esse estado de coisas exclusivamente aos tradutores. Na verdade, estes, como vejo, são de fato os menos culpados pelo embrulho profissional em que os meteram.

                Digo os meteram porque se há alguém que deve ser diretamente responsabilizado pela ascensão da tradução pasteurizada é o próprio mercado tomador de traduções e não há nessa afirmação nenhuma ranhetice de espírito de corpo, mas uma simples constatação de fato: quem determina a qualidade de um produto em mercado com oferta maior que demanda não é, nunca, jamais, em nenhum setor, o produtor, mas o comprador. Se os clientes finais de traduções passarem a comprar traduções como compram qualquer outro componente que agregue valor a seu próprio produto ou serviço (sim, boas traduções agregam valor) não haverá GT no mundo que resista ao crivo da qualidade e as ferramentas de MT assumirão, na atividade e no negócio da tradução, o papel que rapinantes insidiosos, sem nenhum compromisso maior com o ofício de traduzir que não seja o lucro financeiro, lhe roubaram.

                Claro, nós, tradutores, temos nossa parcela de responsabilidade pela situação presente, mas acho muito difícil que alguém com um ínfimo de vergonha profissional entregue um serviço rasteiro, preparado nos gráceis, pelo prazer de fazê-lo. Se o faz, é porque o império da necessidade é tirano e voraz.

                Assim é que enquanto o mercado tomador estiver satisfeito com as traduções de caixinha que recebe, qualquer esforço dos profissionais de tradução para espantar as nuvens negro-esverdeadas dos céus tradutórios será inglório. Eu, desses esforços, já desisti. Prefiro concentrar minhas energias em avançar pelos rincões do mercado (sim, eles existem) onde traduções bem feitas são valorizadas e ferramentas de tradução, sejam de TM ou MT, são tratadas com a deferência que merecem. Tudo bem, o empreendimento é trabalhoso. Algumas coisas, porém, são como certos queijos, precisam ser picadas ou raladas para que revelem o que têm em si de melhor. E sou guloso pacas! "Yummy"!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Qualidade?

Esta semana, duas coisas me fizeram pensar no assunto qualidade da tradução. Uma foi um tópico que abri na comunidade Tradutores/Intérpretes, do Facebook, falando sobre como o Lotus SmartSuite e o Wordperfect eram superiores, na época, ao MS Office, mas acabaram superados por este último por estratégias de marketing agressivo e venda casada. Outra foi um vídeo para lá de interessante, de que tomei conhecimento também no Facebook, através do Roney Belhassof, pensador e filósofo cyber-humanista, administrador da i4B (www.i4b.com.br) nas horas vagas e, quando dá tempo, marido da Cláudia Mello Belhassof. No vídeo, um violinista entra em uma estação do metrô de Washington D.C. e, como qualquer artista de rua, começa a tocar seu instrumento. Durante os 45 minutos de sua sessão musical, apenas seis pessoas se dispuseram a parar e prestar atenção à música tocada. Ao final, angariou US$ 32, sem direito a aplausos. Acontece que o artista se chamava Joshua Bell, um dos violinistas mais talentosos de seu país, que dias antes lotara um concerto em Boston com ingressos a US$ 100 por cabeça e fora tocar no metrô somente como parte de um experimento sobre até que ponto a boa música (as peças tocadas eram de Bach) é capaz de desviar a atenção das pessoas de seus afazeres normais. O vídeo pode ser encontrado em http://www.youtube.com/watch?v=hnOPu0_YWhw
                Os dois casos deixam lições preciosas para nós, tradutores, especialmente para aqueles que acreditam que a qualidade de suas traduções os manterá imunes ao que acontece hoje em nosso mercado.
                O que aconteceu com o Lotus SmartSuite e o Wordperfect no lembra de que há outros fatores além da qualidade que nossos clientes consideram na hora de escolher um produto. No caso desses dois conjuntos de aplicativos, não bastou serem, na maioria dos aspectos, superiores ao MS Office para que permanecessem como primeira escolha dos usuários. Estratégias de venda adotadas pela Microsoft tornaram o uso do Office financeiramente mais vantajoso, terminando por relegar o Lotus SmartSuite e o Wordperfect a nichos e à estagnação.
                Já o exemplo do violinista não poderia ser mais claro e didático. Se, para sobreviver, o músico tivesse que oferecer sua virtuosidade e bela música a um público despreparado para elas ou cujo noção de virtude e beleza não alcançasse o que tinha a oferecer, passaria aperto.
                Há tempos venho lendo e ouvindo a mesma afirmação de que, no mundo das ferramentas de tradução automática, sempre haverá lugar para a tradução de qualidade, como se a qualidade do que produzimos fosse suficiente para nos defender e proteger de qualquer efeito adverso das ferramentas de tradução automática em nossas vidas profissionais. Não é. Por mais que nós, tradutores, nos esforcemos para imprimir qualidade àquilo que fazemos, de acordo com normas e práticas recomendadas gerais de tradução (é o mínimo que devemos fazer), quem determinará a qualidade do que produzimos é nosso público, que tem suas próprias medidas de boa qualidade, má qualidade e qualidade suficiente. Achar uma maneira de entender e atender parâmetros de qualidade distintos, especialmente no que tange à tradução automática, é fundamental para nossa sobrevivência e isso nem sempre será agradável.
                Como os concorrentes do Office, se não acharmos uma maneira de combinar qualidade e preço, feneceremos. Como o violinista virtuoso, se oferecermos qualidade a quem dela não se dá conta, ficaremos à míngua. E se hoje o público quer e anseia pela tradução automática, então, para resolvermos esses dilemas, precisaremos nos entender com essas ferramentas, estabelecer com elas um relacionamento amigável para que, quando exigidos, possamos contar com seus serviços e oferecer ao público traduções com a qualidade que esse público deseja, mesmo não sendo esta, necessariamente, a nossa.
                No fim das contas, tradução automática ou não, vamos combinar, qualidade é aliar o que temos a oferecer àquilo que esperam que ofereçamos. Qualquer outra coisa é presunção.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mú!

Antes de tudo, peço desculpas pelo longo intervalo entre esta postagem e a anterior, quem milita na tradução sabe que não foi por descaso, mas às vezes a gente fica tão assoberbada... Por favor, relevem, mesmo porque acontecerá outras vezes.
                Bom, voltando à bovina com baixa temperatura corporal, qual seja, nossa relação com as ferramentas de tradução, especialmente as MTs e TMs da vida, hoje me deu vontade de comentar a pasteurização das traduções. Tudo a ver, aliás, com a vaca ali no início do parágrafo.
                Sempre acreditei, e continuo a acreditar, que um dos trunfos do profissional autônomo é poder e saber impor sua marca pessoal ao produto de seu esforço dentro dos parâmetros que recebe de seu cliente. Algo como um marceneiro que recebe a encomenda de um armário, com essas e aquelas medidas, a ser usado para isso e aquilo e que, por um jeito todo seu de usar uma talhadeira ou uma plaina, consegue produzir um móvel que, na finalidade, é um armário como os outros, porém com uma identidade em sua produção que o torna único e, de preferência, associável a quem o produziu.
                Essa identidade entre produto e produtor vale, também, na tradução. Qual é tradutor experiente, que já anda no mercado há algum tempo, que não tem pelo menos um cliente que lhe seja fiel justamente pelo modo como elabora uma frase, como prepõe ou pospõe adjetivos ou advérbios, ou como hidrata e viça o mais árido e escanifrado dos textos? E vejam bem, não estou falando só do tradutor literário, falo dos não literários principalmente. Acreditem, tem gente por aí que consegue transformar a tradução de um balanço patrimonial ou de um manual de separador de água e óleo em algo agradável de ler. Conheço alguns.
                Pois no fazer tradutório, é justamente a identidade entre tradutor e tradução que o uso indiscriminado das ferramentas de tradução automática, principalmente aquelas de uso público, mais ameaça. Por serem voltadas essencialmente para a produção, ferramentas de MT se prestam, e muito bem, ao uso simultâneo por uma multitude de tradutores (aliás, dependem disso), que devem abrir mão de sua personalidade tradutória em função da personalidade da máquina (ou da falta dela) para que o produto final de seu esforço seja considerado bom. Como resultado, minha tradução, a sua e a do colega ali da esquina ficam com a mesma carinha. Ou ficam, pelo menos, muito parecidas. Sendo assim, no dia em que todos nós estivermos usando ferramentas como o Google Translate como motor nossa atividades, o que restará ao cliente para diferenciar a minha tradução da sua, ou daquela do colega ali da esquina?
                Você, querido ou querida colega, que traduz profissionalmente como eu, acabou de ter um arrepio na espinha, não foi? Pois é. Se hoje os preços têm tirado nosso, imaginem como será quando, devido a seu uso indiscriminado e cego, promovido irresponsavelmente por muitos (inclusive por aqueles que, por autopreservação, deveriam ser mais cuidadosos), a MT se tornar tão massificada, no pior sentido da palavra, que tudo o que teremos a oferecer aos nossos clientes, diretos ou não, será um preço mais baixo que o concorrente ao lado. Aí sim, será mesmo, para todos os efeitos da tradução profissional, o fim.
                Quem me conhece sabe que, em relação às ferramentas de tradução automática, de catastrofista não tenho nada. Ao contrário, vejo-as como oportunidade de novos ares para nossa profissão que, apesar do oba-oba econômico com que andam a cercá-la, como atividade está um tanto combalida. Mas não podemos descuidar. Se formos na conversa dos que somente querem vender ao invés de responsavelmente promover essa nova realidade profissional, ou nos deixarmos seduzir pelo volume que a ferramenta de tradução automática pública (leia-se online) é capaz de produzir, caminharemos a passos largos para a pasteurização da tradução. Seremos, de fato, como as vacas. Cada uma produz um leite com sabor peculiar, mas na caixinha, depois da pasteurização, fica tudo aguado mesmo.
                Certamente que, em muitas situações, a pasteurização da tradução é necessária e deve ser buscada. Mas não podemos deixar que venha a ser encarada como norma, nem contribuir para isso com nossa passividade ou omissão.
                Cuidem-se, leiam, informem-se, duvidem dos arautos nímbicos que, das nuvens, clamam pelo esforço barato de uma multidão de tradutores obscuros, sem se preocuparem com outra consequência que não seja o número de dígitos no saldo bancário. Façamos a eles e a nós mesmos a pergunta que nossa coleguinha, em outras palavras, faz ali em cima, "o que é que eu levo nisso?". E na resposta é bom que consideremos não só os valores que podemos ganhar hoje, mas se nossas escolhas permitem que nossa profissão, mesmo transformada, sobreviva, e que permaneçamos indivíduos identificáveis, produzindo algo que nos diferencie uns dos outros e reflita o profissional que cada um de nós é.                
                 Vaquinhas? Podemos até ser. Mas de presépio, nunca. Mú procêis!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tradutor automático, eu?!

Recebi hoje a seguinte mensagem de uma colega ou futura colega nossa: "Olá, sou aluna de [Joaninha Pintada] e ela nos indicou você como tradutor automático. Podemos conversar?"
                Depois que expliquei à nossa colega ou futura colega que não, não sou um tradutor automático, mas de carne e osso, aliás com mais carne do que gostaria, achamos muita graça do negócio, eu e ela, mas pensando um pouco, achei melhor esclarecer aqui umas coisinhas.
                Não recomendo a nenhum colega que confie seu trabalho a nenhuma ferramenta de MT, pelo menos aquelas publicamente disponíveis, sejam online ou offline. Para que rendam bem, as ferramentas offline precisam de um treinamento constante e dispendioso em termos de tempo, o que um tradutor que dependa financeiramente do traduzir geralmente não tem. Já as ferramentas online são um saco de gatos em que não se pode confiar, embora possam ser boa fonte de sugestões.
                Não faço apologia do uso da MT. Minha intenção aqui é apenas discutir um assunto que é tratado como tabu entre os tradutores profissionais e tentar ajudar nossa classe a tomar as rédeas da situação e não deixá-las nas mãos de quem não tem nenhum compromisso maior com nosso ofício, mas tão somente com o lucro.
                Além disso, há empresas sérias (agências e clientes diretos) desenvolvendo e oferecendo serviços com MT e que precisam ou estarão precisando logo de profissionais que pelo menos estejam familiarizados com o processo, seja no desenvolvimento de linguagem controlada, na preparação de originais ou na pós-edição, e devemos estar preparados para atendê-las. Espero, então, com este blog, estar contribuindo para isso.

                Tudo claro?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MT, desatino empresarial e uma carta de amor

Já disse em outras oportunidades que gosto muito de trabalhar com agências de tradução e que, em minha opinião, sua atuação em nosso mercado é injustamente demonizada. Mas quando o assunto é lidar com as transformações introduzidas em nosso negócio (no bom sentido, de dentro para fora) pelas ferramentas de auxílio à produção, principalmente as ferramentas de MT, aí a coisa muda de figura e para bem pior. Infelizmente, salvo uma minoria, as empresas que vendem serviços de tradução, notadamente as empresas de localização, estão abrindo uma cova grande o suficiente para caber todos nós, inclusive elas próprias, e sorrindo enquanto o fazem.
                Estamos num momento em que a necessidade da tradução humana e a função do tradutor foram postas na berlinda pelos tomadores do mercado (os compradores de tradução), que muito pouco ou nada sabem sobre tradução automática (MT) e estão achando que se trata da maravilha das maravilhas, algo que os livrará da chatice e do desperdício financeiro de ter que esperar que seus documentos sejam traduzidos por custos que acham absurdos. E as empresas de tradução, que por seu maior trâmite nesse mercado, deveriam tomar para si a responsabilidade de defender todos os envolvidos em sua atividade e fazer seus clientes perceberem que não é bem assim, que para haver traduções de qualidade o linguista profissional ainda tem e terá um papel muito relevante a desempenhar nesse bravo novo mundo da MT, fazem o quê? Salvo a já citada minoria, ratificam para seus clientes a ideia absurda de que podem ter tradução em quantidades granélicas com qualquer nível de qualidade num estalar de dedos. Pior ainda, tentam inculcar essa mesma ideia, a de que boa tradução pode ser feita às toneladas, em seus próprios tradutores, com mistificações muito bem argumentadas sobre "nuvens" e "suckersourcing" ("crowdsourcing" é outra coisa), chegando a explicitamente desvalorizar o trabalho do tradutor no intuito claro de remunerar menos.
                Com isso em mente, resolvi sentar e escrever essa cartinha para os queridíssimos de algumas empresas de tradução. Lá vai.

                Queridíssimas agências de tradução e localização cujos olhos a MT arregalou:

                Pessoal, por meio desta venho ter um papo reto com vocês. ACORDA, POVO! Já passou da hora! Será que ainda não perceberam que se continuarem mistificando a MT para seus clientes e tentando criar um magote de pós-editores mal pagos para produzir tradução em massa estarão dando um tiro no próprio pé? Quanto tempo acham que levará até que seus próprios clientes incluam vocês na irrelevância e os troquem por um Systran da vida, que poderá produzir, por um custo bem menor, a mesma coisa reles que as agências estão fornecendo? Sem contar que isso só contribui para a imagem de aproveitadores e empresários descomprometidos que muitos dos meus colegas erradamente (o advérbio é sincero) têm de vocês.
                Uma sugestão: por que não passar a vender serviços como os que vende a Pangea (http://www.pangea.com.mt/en/about-pangeanic-com-mt/)? Não trabalho para eles, não sei se remuneram bem os prestadores, mas no tipo de serviço que vendem é onde pode estar seu futuro empresarial e nosso porvir profissional.
                Queridíssimos das agências e empresas de tradução, estamos nessa juntos, "é nóis"! Deixem de bobeira, apertem os olhos e assumam suas responsabilidades de desbravadores de uma nova senda tradutória, por onde nós, tradutores, seguiremos altivamente, e parem de ser arautos do Apocalipse tradutístico! Entendo que seu objetivo é lucrar com traduções e não poderia ser diferente, mas se continuarem assim, louvando a máquina confiados numa turba de tradutores meia-boca em detrimento do linguista profissional, muito em breve, ao invés de atirarem no próprio pé, estarão apontando uma MT carregada, de grosso calibre, para suas próprias cabeças. E as de seus tradutores.
                Olha lá o que vão fazer, hein?

                Com amor, eu.