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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MT, desatino empresarial e uma carta de amor

Já disse em outras oportunidades que gosto muito de trabalhar com agências de tradução e que, em minha opinião, sua atuação em nosso mercado é injustamente demonizada. Mas quando o assunto é lidar com as transformações introduzidas em nosso negócio (no bom sentido, de dentro para fora) pelas ferramentas de auxílio à produção, principalmente as ferramentas de MT, aí a coisa muda de figura e para bem pior. Infelizmente, salvo uma minoria, as empresas que vendem serviços de tradução, notadamente as empresas de localização, estão abrindo uma cova grande o suficiente para caber todos nós, inclusive elas próprias, e sorrindo enquanto o fazem.
                Estamos num momento em que a necessidade da tradução humana e a função do tradutor foram postas na berlinda pelos tomadores do mercado (os compradores de tradução), que muito pouco ou nada sabem sobre tradução automática (MT) e estão achando que se trata da maravilha das maravilhas, algo que os livrará da chatice e do desperdício financeiro de ter que esperar que seus documentos sejam traduzidos por custos que acham absurdos. E as empresas de tradução, que por seu maior trâmite nesse mercado, deveriam tomar para si a responsabilidade de defender todos os envolvidos em sua atividade e fazer seus clientes perceberem que não é bem assim, que para haver traduções de qualidade o linguista profissional ainda tem e terá um papel muito relevante a desempenhar nesse bravo novo mundo da MT, fazem o quê? Salvo a já citada minoria, ratificam para seus clientes a ideia absurda de que podem ter tradução em quantidades granélicas com qualquer nível de qualidade num estalar de dedos. Pior ainda, tentam inculcar essa mesma ideia, a de que boa tradução pode ser feita às toneladas, em seus próprios tradutores, com mistificações muito bem argumentadas sobre "nuvens" e "suckersourcing" ("crowdsourcing" é outra coisa), chegando a explicitamente desvalorizar o trabalho do tradutor no intuito claro de remunerar menos.
                Com isso em mente, resolvi sentar e escrever essa cartinha para os queridíssimos de algumas empresas de tradução. Lá vai.

                Queridíssimas agências de tradução e localização cujos olhos a MT arregalou:

                Pessoal, por meio desta venho ter um papo reto com vocês. ACORDA, POVO! Já passou da hora! Será que ainda não perceberam que se continuarem mistificando a MT para seus clientes e tentando criar um magote de pós-editores mal pagos para produzir tradução em massa estarão dando um tiro no próprio pé? Quanto tempo acham que levará até que seus próprios clientes incluam vocês na irrelevância e os troquem por um Systran da vida, que poderá produzir, por um custo bem menor, a mesma coisa reles que as agências estão fornecendo? Sem contar que isso só contribui para a imagem de aproveitadores e empresários descomprometidos que muitos dos meus colegas erradamente (o advérbio é sincero) têm de vocês.
                Uma sugestão: por que não passar a vender serviços como os que vende a Pangea (http://www.pangea.com.mt/en/about-pangeanic-com-mt/)? Não trabalho para eles, não sei se remuneram bem os prestadores, mas no tipo de serviço que vendem é onde pode estar seu futuro empresarial e nosso porvir profissional.
                Queridíssimos das agências e empresas de tradução, estamos nessa juntos, "é nóis"! Deixem de bobeira, apertem os olhos e assumam suas responsabilidades de desbravadores de uma nova senda tradutória, por onde nós, tradutores, seguiremos altivamente, e parem de ser arautos do Apocalipse tradutístico! Entendo que seu objetivo é lucrar com traduções e não poderia ser diferente, mas se continuarem assim, louvando a máquina confiados numa turba de tradutores meia-boca em detrimento do linguista profissional, muito em breve, ao invés de atirarem no próprio pé, estarão apontando uma MT carregada, de grosso calibre, para suas próprias cabeças. E as de seus tradutores.
                Olha lá o que vão fazer, hein?

                Com amor, eu.

Um comentário:

  1. já que você tocou no tema localização, faço aqui um paralelo. minha TCC foi sobre análise da localização em rótulos de comestíveis (que vai sair em livro esse ano) no brasil e no exterior, mas não pude deixar de chamar atenção para o que a indústria de localização está fazendo com a tradução. claro que meu viés é bem filosófico e acadêmico neste ponto, mas o que me deixou mais angustiada mesmo foi que não há hoje no brasil uma discussão sobre a questão, e, pelo que me parece, sequer consciência do que está acontecendo (encontrei alguns gatos pingados no exterior). prova é que falei brevemente sobre o assunto em uma palestra e a plateia não deixou de ficar surpresa. parece-me que o mesmo aplica-se para a TA (cenário que começo a ver traçado abertamente por você). mas, caso esteja enganada a este respeito, resta-me assumir que muitos do que estão ciente do atual desdobramento dessas questões, não estão colocando a boca no trombone - ou pelo menos não alto o suficiente. pior ainda, aqueles que têm voz, como constatei em um blog famoso um dia desses, manifestam-se, na minha opinião, de forma leviana. ainda que não tenha sido intencional ou consciente, o que eu posso concluir disso é que os demais que não sabem o que estão acontecendo, por ouvir isso de alguém que acham influente, vão comprar a ideia sem saber o que está por trás dela. e se pior puder ser, quando quiserem tomar uma atitude, já será tarde demais: a localização já estará plenamente estabelecida e a tradução automática estigmatizada. (desculpe-me o longo e um pouco desconexo desabafo! espero que tenha entendido a ideia)

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