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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Qualidade?

Esta semana, duas coisas me fizeram pensar no assunto qualidade da tradução. Uma foi um tópico que abri na comunidade Tradutores/Intérpretes, do Facebook, falando sobre como o Lotus SmartSuite e o Wordperfect eram superiores, na época, ao MS Office, mas acabaram superados por este último por estratégias de marketing agressivo e venda casada. Outra foi um vídeo para lá de interessante, de que tomei conhecimento também no Facebook, através do Roney Belhassof, pensador e filósofo cyber-humanista, administrador da i4B (www.i4b.com.br) nas horas vagas e, quando dá tempo, marido da Cláudia Mello Belhassof. No vídeo, um violinista entra em uma estação do metrô de Washington D.C. e, como qualquer artista de rua, começa a tocar seu instrumento. Durante os 45 minutos de sua sessão musical, apenas seis pessoas se dispuseram a parar e prestar atenção à música tocada. Ao final, angariou US$ 32, sem direito a aplausos. Acontece que o artista se chamava Joshua Bell, um dos violinistas mais talentosos de seu país, que dias antes lotara um concerto em Boston com ingressos a US$ 100 por cabeça e fora tocar no metrô somente como parte de um experimento sobre até que ponto a boa música (as peças tocadas eram de Bach) é capaz de desviar a atenção das pessoas de seus afazeres normais. O vídeo pode ser encontrado em http://www.youtube.com/watch?v=hnOPu0_YWhw
                Os dois casos deixam lições preciosas para nós, tradutores, especialmente para aqueles que acreditam que a qualidade de suas traduções os manterá imunes ao que acontece hoje em nosso mercado.
                O que aconteceu com o Lotus SmartSuite e o Wordperfect no lembra de que há outros fatores além da qualidade que nossos clientes consideram na hora de escolher um produto. No caso desses dois conjuntos de aplicativos, não bastou serem, na maioria dos aspectos, superiores ao MS Office para que permanecessem como primeira escolha dos usuários. Estratégias de venda adotadas pela Microsoft tornaram o uso do Office financeiramente mais vantajoso, terminando por relegar o Lotus SmartSuite e o Wordperfect a nichos e à estagnação.
                Já o exemplo do violinista não poderia ser mais claro e didático. Se, para sobreviver, o músico tivesse que oferecer sua virtuosidade e bela música a um público despreparado para elas ou cujo noção de virtude e beleza não alcançasse o que tinha a oferecer, passaria aperto.
                Há tempos venho lendo e ouvindo a mesma afirmação de que, no mundo das ferramentas de tradução automática, sempre haverá lugar para a tradução de qualidade, como se a qualidade do que produzimos fosse suficiente para nos defender e proteger de qualquer efeito adverso das ferramentas de tradução automática em nossas vidas profissionais. Não é. Por mais que nós, tradutores, nos esforcemos para imprimir qualidade àquilo que fazemos, de acordo com normas e práticas recomendadas gerais de tradução (é o mínimo que devemos fazer), quem determinará a qualidade do que produzimos é nosso público, que tem suas próprias medidas de boa qualidade, má qualidade e qualidade suficiente. Achar uma maneira de entender e atender parâmetros de qualidade distintos, especialmente no que tange à tradução automática, é fundamental para nossa sobrevivência e isso nem sempre será agradável.
                Como os concorrentes do Office, se não acharmos uma maneira de combinar qualidade e preço, feneceremos. Como o violinista virtuoso, se oferecermos qualidade a quem dela não se dá conta, ficaremos à míngua. E se hoje o público quer e anseia pela tradução automática, então, para resolvermos esses dilemas, precisaremos nos entender com essas ferramentas, estabelecer com elas um relacionamento amigável para que, quando exigidos, possamos contar com seus serviços e oferecer ao público traduções com a qualidade que esse público deseja, mesmo não sendo esta, necessariamente, a nossa.
                No fim das contas, tradução automática ou não, vamos combinar, qualidade é aliar o que temos a oferecer àquilo que esperam que ofereçamos. Qualquer outra coisa é presunção.

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